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05/10/2009 - Como produzir sem devastar o Cerrado? - Katarini Miguel

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Katarini Miguel é jornalista com mestrado na área ambiental. Atualmente atua na assessoria de imprensa da ONG Vidágua, em Bauru, interior do Estado de São Paulo
Recente caderno especial sobre Cerrado publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo, traz um alerta importante, que há muito já deveria ter sido destacado na mídia: "mais da metade do bioma já foi destruída ou alterada pelo homem nos últimos 40 anos, ao ritmo de quatro campos de futebol por minuto, sem que ninguém se preocupasse muito com isso".
Em setembro, como marco do Dia Nacional do Cerrado (11) participei, em Brasília, do Encontro dos Povos do Cerrado, que reuniu mais de mil representantes de comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, ambientalistas e acadêmicos para discutir a devastação do bioma, em uma perspectiva da utilização sustentável.
As grandes questões colocadas, na verdade, ficaram sem respostas: como garantir a sobrevivência dos povos do Cerrado? A dignidade das populações tradicionais? Como produzir sem devastar o bioma? O "Grito do Cerrado" evidenciou estas questões em uma caminhada da esplanada dos ministérios até o Congresso Nacional, visando também alertar a sociedade e a casa de leis para a situação do bioma e fazer pressão (ainda que simbólica) para incluir o Cerrado como Patrimônio Nacional na Constituição, a exemplo dos outros biomas. Como bem lembrou a reportagem do Estadão: "De um lado, a Amazônia, ícone máximo da ecologia mundial. Do outro, a Mata Atlântica. E no meio delas, o Cerrado", totalmente esquecido, inclusive pela legislação.
Duas informações que tive durante o evento me deixaram perplexa. O ritmo de desmatamento do bioma chega a ser três vezes superior ao da Amazônia, enquanto as queimadas no Cerrado exercem tanto ou mais influência no aquecimento global do que as que ocorrem na Amazônia, mas nem a sociedade nem o governo, nem a mídia, se atentam para esse fato. Ministrei uma oficina durante o evento para comentar a representatividade do Cerrado na mídia e buscar maneiras, propostas de colocá-lo em evidência, o que rendeu boas discussões. Para se ter uma ideia, no ano de 2007, o Cerrado foi pauta principal, ou seja, o assunto central, em apenas três matérias no jornal O Estado de S.Paulo (que surpreendeu com a edição deste caderno especial, o que nos leva a crer em uma mudança de paradigmas nesse sentido), enquanto a Amazônia teve 40 publicações específicas. Um disparate! Não desmerecendo o bioma amazônico, mas o que está acontecendo é um total desprezo pelo Cerrado e pela sua rica biodiversidade.
Biodiversidade formada por dunas, campos, chapadas e florestas mais antigas que as vegetações atlânticas e amazônicas, sem contar as 830 espécies de aves, 180 de mamíferos e 300 de anfíbios e répteis. É o segundo maior bioma do país e conta com um potencial farmacológico, ainda a ser destrinchado, mas que sinaliza para cura e alívio de doenças crônicas como enxaquecas, artrites, artrose e diabetes. No entanto, apenas 11% de suas terras estão protegidas por Unidades de Conservação. Um bom indicativo foi que em maio deste ano o governador José Serra sancionou a lei do Cerrado em São Paulo, com critérios mais rígidos que o Código Florestal. Entre as novas medidas, está a implementação de restrições para a concessão de licenciamentos/empreendimentos em regiões do Cerrado. Sem outra opção, porque resta apenas 1% de remanescente, São Paulo passou a ser o primeiro Estado com legislação específica.
Podemos, sim, avaliar um avanço no que se refere à preservação ambiental. Já tem muito produtor que está entendendo o recado e se atentando para um agronegócio mais sustentável e estável, em que não é preciso desmatar para aumentar produção. A mudança de paradigmas, colocando o Cerrado como um bioma importante e fundamental deve ser geral - no governo, sociedade, mídia, indústria e em todos os processos produtivos. De volta à questão: como produzir sem devastar o bioma? É esta resposta que teremos que buscar urgentemente.

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