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06/11/2009 - O agricultor e o seu sustento - Braz Albertini

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Braz Albertini é Presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de São Paulo, agricultor e idealizador da Agrifam.

 

Mal amanhece o dia e o homem do campo está labutando na terra para o seu sustento e de sua família. Somos mais de cinco milhões de produtores rurais proprietários, além dos parceiros, meeiros e arrendatários, que jogam semente na terra e cuidam para que a natureza as transforme em frutos que formam o seu produto de renda. Mais do que em qualquer outro ramo de atividade, a agricultura tem concorrência perfeita, ou seja, qualquer pessoa poderá ser um agricultor sem nenhuma restrição. Não temos um zoneamento agrícola que determine sobre a produção mais adequada por região. O que deixa livre a decisão de cada um plantar aquilo que achar melhor, fato que ocasiona o excesso de produção dos alimentos que estão em alta no mercado. A consequência disso é um número de produtores muito grande produzindo de tudo aleatoriamente, sem um controle que determine quais produtos devem ser plantados em cada região. Esse excesso acaba inviabilizando os preços.


Os governos fazem os estoques reguladores para a manutenção dos valores. Por exemplo, quando falta arroz no mercado, eles realizam os leilões do produto estocado para que não tenha alta nos preços. O que do ponto de vista governamental é correto, mas o agricultor só consegue um maior lucro quando a cultura que ele produz está em escassez no mercado. Se não há estoques do governo, ele acaba por importar para a regulação dos preços. Eu pergunto: é um acidente quando o agricultor fatura alto? Os setores de fertilizantes e defensivos agrícolas estão tremendamente organizados em carteis. É só melhorar as condições da agricultura que eles arrumam motivo para jogar os preços nas alturas e arrancam o dinheirinho que os agricultores fizeram. O homem do campo depende de vários fatores naturais para que sua produção se desenvolva. Infelizmente, apesar de dizermos que a natureza é perfeita, não conseguimos fazer chover ou raiar o sol à hora que queremos. Nem sempre a natureza é generosa com a agricultura. Dependendo da produção, há quem perca com o sol, com chuva, e muitas vezes, com picaretas que compram e não pagam. O movimento sindical e outras entidades do setor lutam para viabilizar um seguro que garanta renda aos produtores. Existe hoje um projeto de lei tramitando no Congresso para criar um fundo de catástrofe, quem sabe possa ser aprovado.


Um dia desses conversava com um produtor representante de um grupo de 14 famílias de um assentamento do Crédito Fundiário no município de Corumbataí, que financiaram a terra, e ele desabafou dizendo: "Nós produzimos 6 mil caixas de beterraba, 4 mil caixas de abobrinha, 5 mil caixas de cenoura, 3,8 mil caixas de quiabo, 20 mil pés de alface e 200 sacas de feijão, todos produtos de primeira. Estamos produzindo comida, e quando chego no banco sou desprezado e tratado como um Zé Ninguém. Eu mereço ser mais respeitado".


Sou presidente da Fetaesp e sou produtor. Já passei por todas essas dificuldades relatadas aqui. Por isso que não paro de trabalhar em todo o Estado para organizar os produtores e a produção agrícola, para tentar sensibilizar nossas autoridades e mostrar que o agronegócio paulista representa 40% do PIB do Estado e essa grandeza toda não pode continuar sendo tratada com o desprezo que temos hoje. A população urbana precisa se interessar mais pelas coisas da agricultura. As associações comerciais também devem pensar mais em como trabalhar em parceria com o setor, porque a maioria dos nossos municípios se desenvolve melhor quando a agricultura vai bem. O investimento do orçamento do Estado na Secretaria da Agricultura não pode continuar sendo pouco mais de 0,5%. Se não houver uma segurança e uma perspectiva maior para os agricultores, muita gente que está hoje no campo vai desanimar e mudar para as cidades, concorrer com quem já está lá. Isso não é bom para o homem do campo porque ele não está preparado para essa concorrência, aumentando a população desempregada e, por consequência, a marginalização nas grandes cidades. E essa parte nós já conhecemos bem, está nas manchetes de qualquer jornal.

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